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segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Monólogo de Natal, Aldemar Paiva



Não gosto de você, Papai-Noel, também não gosto desse seu papel de vender ilusões à burguesia... 

Se os garotos humildes da cidade soubessem do seu ódio à humanidade, jogavam pedras nessa fantasia! 
Você talvez nem se recorde mais, cresci depressa e me tornei rapaz sem esquecer, no entanto o que passou... 
Fiz-lhe um bilhete pedindo um presente e a noite inteira eu esperei contente, chegou o sol e você não chegou! 

Dias depois, meu pobre pai, cansado, trouxe um trenzinho feio, enferrujado, que me entregou com certa hesitação... 
Fechou os olhos e balbuciou: 
“É pra você, Papai-Noel mandou...” e se esquivou, contendo a emoção! 

Alegre e inocente, nesse caso pensei que o meu bilhete, com atraso chegara às suas mãos no fim do mês... 
Limpei o trem, dei corda, ele partiu deu muitas voltas, meu pai sorriu e me abraçou pela última vez! 
O resto só eu pude compreender quando cresci e comecei a ver todas as coisas com realidade... 

Meu pai chegou um dia e disse a medo: 
“_ Onde é que está aquele brinquedo? 
Eu vou trocar por outro na cidade!” 

Dei-lhe o trenzinho quase a soluçar e como quem não quer abandonar um mimo que nos deu alguém que nos quer bem, disse medroso: _ Eu só queria ele... 
Não quero outro brinquedo, quero aquele e, por favor, não vá levar meu trem! 

Meu pai calou-se e pelo rosto veio descendo um pranto e eu ainda creio tão puro e santo como só Jesus chorou... 

Mamãe gritou, ele não deu ouvidos, saiu correndo e nunca mais voltou! 

Você, Papai-Noel, me transformou num homem que a infância arruinou, sem pai e sem brinquedos, afinal dos seus presentes não há um só que sobre para riqueza do menino pobre que sonha o ano inteiro com o Natal! 

Meu pobre pai, doente, mal vestido, pra não me ver assim desiludido, comprou por qualquer preço uma ilusão... 

Num gesto nobre pra trazer-me lenitivo, roubando o trem do filho do patrão! 

Pensei que viajara, no entanto, depois de grande, 

Minha mãe, em pranto, contou, que fora preso e 
Como réu ninguém a absolvê-lo se atrevia... 

Foi definhando até que Deus um dia entrou na cela 

E o libertou pro céu! 

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